Margaret Thatcher, estadista inglesa, ensinava que na política, antes de tudo, é preciso assumir um lado. E persistir nele.
Durante toda a sua vida pública ela agiu de acordo com tal postulado. Defendia a livre-iniciativa, a concorrência entre as empresas e a consequente redução do papel do Estado na economia e na sociedade. Manteve esse discurso mesmo quando os seus adversários trabalhistas pareciam invencíveis. Mas um dia chegou a sua vez: seu Partido Conservador venceu as eleições e ela chegou ao posto de primeiro-ministro. Governou por quase uma década e em momento algum abandonou as suas convicções.
Muito tempo antes, Winston Churchill, outro membro do Partido Conservador, foi ridicularizado por mais de uma década pelo fato de entender que o nazismo alemão representava uma séria ameaça às nações democráticas. Em 1941, com Londres em chamas, enfim o convocaram para dirigir a Inglaterra.
O mesmo ocorreu nos EUA, com Ronald Reagan. Durante mais de 20 anos ele martelou o público americano com as mesmas teses: menor ingerência estatal na economia e maior poder de escolha para os indivíduos. A sua intransigente defesa desses princípios o fez ser menosprezado pela imprensa dita "esclarecida" e lhe custou até a indicação de seu Partido Republicano para concorrer à presidência do país - e isso lhe aconteceu em duas ocasiões.
Mas um dia ele chegou lá. Conseguiu ser escolhido candidato dos republicanos e empolgou a nação com as suas ideias. Foi eleito e reeleito presidente dos EUA.
Quando Margaret Thatcher afirmou a importância de se assumir um lado, referia-se tanto à esfera pública quanto à pessoal.
Eu me lembro de ter lido em algum lugar o argumento de que a ética existe até mesmo na guerra. O capitão do submarino alemão e o comandante do navio inglês eram, obviamente, inimigos. Mas algo eles tinham em comum: ambos se dispunham a morrer por sua pátria e cada um esperava do outro que morresse pela pátria dele, também. Mas o que aconteceria se algum deles tentasse propor um acordo? Talvez até o conseguisse, mas estaria, assim, traindo não só o seu povo como também a sua própria honra.
Alguns podem afirmar que em política é "diferente". Não, não é. Os cidadãos que se dispõem a dar o seu voto a alguém precisam saber que ideias são defendidas por seu candidato. E também ter a segurança de saber que, uma vez eleito, ele se conduzirá de acordo com elas. E é do próprio senso comum que os homens públicos se comportem assim.
Há no Brasil, ao menos, duas vertentes de pensamento que não entendem o jogo político dessa maneira. Na falta de nomes melhores, vou intitular uma delas como "revolucionária" e a outra como "pragmática".
A primeira reúne todas as correntes que, no palco público, se identificam com os ensinamentos de Karl Marx. A segunda é aquela que tem em Maquiavel o seu principal mentor.
Uma entende que moral e ética são conceitos criados pelas "classes dominantes" e não se pauta por eles. Matar, roubar, trair, qualquer conduta é válida desde que seja necessária para se chegar à "revolução" - na qual os "explorados" prevalecerão sobre os "exploradores".
A outra também renega a moral e a ética porque entende que, na esfera pública, só logram ter êxito aqueles que praticam a política "exatamente como ela é".
Estes últimos são os imorais. Já os primeiros preferem dizer-se "amorais".
Qual é a diferença?
Uns reconhecem as regras morais, mas não se incomodam em transgredi-las. Os outros alegam não existir moral alguma. Ambas as tendências, às vezes, se confundem. E isso decorre do fato de que, para as duas, vale o preceito de que os fins justificam os meios.
Não existem escrúpulos em nenhuma delas. Ambas menosprezam a capacidade de discernimento dos indivíduos. Ambas entendem que cabe a uma minoria esclarecida o papel de dirigir as massas. Para as duas, apenas alguns poucos sabem distinguir o bem do mal.
Uns acreditam que é possível mudar tudo. Outros acham que não é possível mudar nada.
Felizmente, além desses "revolucionários" e "pragmáticos", existem uns tantos outros para quem a moral e a ética são valores que contam. E é com eles que procuram pautar a sua conduta. O conceito de honra, para esses poucos, é um princípio de vida. Como o são, também, a honestidade, o decoro e a dignidade.
Todos esses atributos são pessoais. Dependem da índole de cada um e não podem flutuar ao sabor das circunstâncias. Somente assim se pode andar na rua com a cabeça erguida.
Uma velha raposa da política brasileira resumia esse conceito de uma forma magistral. Dizia ele que "quem se mexe muito não sai na foto".
Tudo bem, o liberalismo saiu de moda. Ainda mais depois da crise econômica norte-americana de 2008. Nós, liberais, tivemos de revisar muitas de nossas crenças. A principal, entre elas, é a de que os mercados, deixados por si próprios, acabam sempre se ajustando. Mas foi necessária a intervenção do Estado para garantir a liquidez da economia. Para muitos liberais, esse baque foi equivalente ao sofrido pelos comunistas com a queda do Muro de Berlim.
Muito do que pregávamos, de repente, caiu por terra. Mas na nossa vida - como nas nossas convicções - não ocorre a ninguém trocar de valores tão somente porque outros aparentam ser mais convenientes.
Eu, por mim, pretendo continuar a dizer as mesmas coisas. Não vou trocar de ideia nem pretendo mudar de assunto: defendo uma sociedade aberta, com respeito aos direitos de cada um e a confiança no juízo de todos.
Chegará, um dia, a nossa vez. Até mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia...
Durante toda a sua vida pública ela agiu de acordo com tal postulado. Defendia a livre-iniciativa, a concorrência entre as empresas e a consequente redução do papel do Estado na economia e na sociedade. Manteve esse discurso mesmo quando os seus adversários trabalhistas pareciam invencíveis. Mas um dia chegou a sua vez: seu Partido Conservador venceu as eleições e ela chegou ao posto de primeiro-ministro. Governou por quase uma década e em momento algum abandonou as suas convicções.
Muito tempo antes, Winston Churchill, outro membro do Partido Conservador, foi ridicularizado por mais de uma década pelo fato de entender que o nazismo alemão representava uma séria ameaça às nações democráticas. Em 1941, com Londres em chamas, enfim o convocaram para dirigir a Inglaterra.
O mesmo ocorreu nos EUA, com Ronald Reagan. Durante mais de 20 anos ele martelou o público americano com as mesmas teses: menor ingerência estatal na economia e maior poder de escolha para os indivíduos. A sua intransigente defesa desses princípios o fez ser menosprezado pela imprensa dita "esclarecida" e lhe custou até a indicação de seu Partido Republicano para concorrer à presidência do país - e isso lhe aconteceu em duas ocasiões.
Mas um dia ele chegou lá. Conseguiu ser escolhido candidato dos republicanos e empolgou a nação com as suas ideias. Foi eleito e reeleito presidente dos EUA.
Quando Margaret Thatcher afirmou a importância de se assumir um lado, referia-se tanto à esfera pública quanto à pessoal.
Eu me lembro de ter lido em algum lugar o argumento de que a ética existe até mesmo na guerra. O capitão do submarino alemão e o comandante do navio inglês eram, obviamente, inimigos. Mas algo eles tinham em comum: ambos se dispunham a morrer por sua pátria e cada um esperava do outro que morresse pela pátria dele, também. Mas o que aconteceria se algum deles tentasse propor um acordo? Talvez até o conseguisse, mas estaria, assim, traindo não só o seu povo como também a sua própria honra.
Alguns podem afirmar que em política é "diferente". Não, não é. Os cidadãos que se dispõem a dar o seu voto a alguém precisam saber que ideias são defendidas por seu candidato. E também ter a segurança de saber que, uma vez eleito, ele se conduzirá de acordo com elas. E é do próprio senso comum que os homens públicos se comportem assim.
Há no Brasil, ao menos, duas vertentes de pensamento que não entendem o jogo político dessa maneira. Na falta de nomes melhores, vou intitular uma delas como "revolucionária" e a outra como "pragmática".
A primeira reúne todas as correntes que, no palco público, se identificam com os ensinamentos de Karl Marx. A segunda é aquela que tem em Maquiavel o seu principal mentor.
Uma entende que moral e ética são conceitos criados pelas "classes dominantes" e não se pauta por eles. Matar, roubar, trair, qualquer conduta é válida desde que seja necessária para se chegar à "revolução" - na qual os "explorados" prevalecerão sobre os "exploradores".
A outra também renega a moral e a ética porque entende que, na esfera pública, só logram ter êxito aqueles que praticam a política "exatamente como ela é".
Estes últimos são os imorais. Já os primeiros preferem dizer-se "amorais".
Qual é a diferença?
Uns reconhecem as regras morais, mas não se incomodam em transgredi-las. Os outros alegam não existir moral alguma. Ambas as tendências, às vezes, se confundem. E isso decorre do fato de que, para as duas, vale o preceito de que os fins justificam os meios.
Não existem escrúpulos em nenhuma delas. Ambas menosprezam a capacidade de discernimento dos indivíduos. Ambas entendem que cabe a uma minoria esclarecida o papel de dirigir as massas. Para as duas, apenas alguns poucos sabem distinguir o bem do mal.
Uns acreditam que é possível mudar tudo. Outros acham que não é possível mudar nada.
Felizmente, além desses "revolucionários" e "pragmáticos", existem uns tantos outros para quem a moral e a ética são valores que contam. E é com eles que procuram pautar a sua conduta. O conceito de honra, para esses poucos, é um princípio de vida. Como o são, também, a honestidade, o decoro e a dignidade.
Todos esses atributos são pessoais. Dependem da índole de cada um e não podem flutuar ao sabor das circunstâncias. Somente assim se pode andar na rua com a cabeça erguida.
Uma velha raposa da política brasileira resumia esse conceito de uma forma magistral. Dizia ele que "quem se mexe muito não sai na foto".
Tudo bem, o liberalismo saiu de moda. Ainda mais depois da crise econômica norte-americana de 2008. Nós, liberais, tivemos de revisar muitas de nossas crenças. A principal, entre elas, é a de que os mercados, deixados por si próprios, acabam sempre se ajustando. Mas foi necessária a intervenção do Estado para garantir a liquidez da economia. Para muitos liberais, esse baque foi equivalente ao sofrido pelos comunistas com a queda do Muro de Berlim.
Muito do que pregávamos, de repente, caiu por terra. Mas na nossa vida - como nas nossas convicções - não ocorre a ninguém trocar de valores tão somente porque outros aparentam ser mais convenientes.
Eu, por mim, pretendo continuar a dizer as mesmas coisas. Não vou trocar de ideia nem pretendo mudar de assunto: defendo uma sociedade aberta, com respeito aos direitos de cada um e a confiança no juízo de todos.
Chegará, um dia, a nossa vez. Até mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia...
Publicado na edição de 07 de outubro de 2011 no jornal O Estado de S. Paulo por João Mellão Neto - Membro de uma tradicional família do interior paulista, escreve, há muitos anos, uma coluna quinzenal no jornal O Estado de S. Paulo, veiculada atualmente às sextas-feiras. Começa a sua carreira política fazendo campanha para Fernando Henrique Cardoso, um dos candidatos do MDB ao Senado nas eleições de 1978. Foi convidado pelo próprio Jânio Quadros, que havia sido eleito prefeito de São Paulo, para ser o seu secretário de Coordenação Governamental. Lá, graças a uma reforma administrativa bem-sucedida, passou a obter maior visibilidade, o que impulsionou uma candidatura sua à prefeitura nas eleições de 1988 pelo recém-fundado Partido Liberal, quando foi derrotado por Luiza Erundina.
Em 1990 foi eleito deputado federal pelo PL e dois anos depois é nomeado ministro do Trabalho e da Administração pelo então presidente Fernando Collor, numa época que já compreendia o início do processo de impeachment do mesmo. No cargo, dá início ao programa de capacitação e reformulação dos quadros do funcionalismo público federal. Em 1993 é escolhido pelo prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, para ocupar a Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano, posto no qual fica por cerca de um ano, sendo um dos idealizadores do Projeto Cingapura. Nas eleições de 1994 foi reeleito para o cargo de deputado federal. No ano seguinte troca o PL pelo Partido da Frente Liberal.
Em 2002 passa a trabalhar na administração do governador Geraldo Alckmin como secretário de Comunicação, comandando a pasta por pouco mais de um ano. Em 2006 foi eleito deputado estadual pelo PFL (atual Democratas), não conseguindo, entretanto, se reeleger em 2010. Tanto em seus artigos quanto em sua vida pública revela posturas voltadas para o conservadorismo político e o liberalismo econômico, do qual é um ardoroso defensor, além de ter empenhado ferrenha oposição ao governo Lula (2003-2010).

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